A Literação

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"Pegue todo o quadro, e esqueça as cores e os exageros que te ludibriam, lá no fundo você vai enxergar, sim é um coração."
R.F.

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  1. A Canção do Corvo

    Música:http://www.youtube.com/watch?v=2hJz1nEguik

    E mais uma: http://www.youtube.com/watch?v=n0tzcJNtWcs

    Os dias se cumpriam mornos e lentamente;
    Um barulho silencioso de passar e ser passado.
    Do desejo, a vontade de querer sempre ir mais distante,
    E mais além, poder em seu bem querer… Desfazer-se.
    Asas tortas a voar. Um desaguar de sombras
    Entre o Verão e o Outono.”

     

    Sentado num banco de praça e o mundo nunca passou antes… Tão depressa. Os olhos acalmados nas migalhas. Mesmo o chão parecia distante, de forma que nem mesmo os pombos se incomodavam mais pela pressa que ali cruzava. No pôr do sol parecia que as coisas que iam, não voltavam mais. O sino da igreja tocava. Cinco horas, é um bom momento para o céu começar a se desmanchar, as nuvens trocam de cor, aviões também correm seu destino, tudo marca no céu o seu rastro. Eu ainda sinto como se faltasse alguma coisa bem distante, mas que não deixa rastros, que a cada dia me desfaço mais e sem pegadas.

    Meu andar criou sombras ainda maiores… Dessas que voam aos céus, um pássaro negro de um pulsar de sonhos. Na velocidade prematura e infantil de encontrar um céu azul, calmo. Mas tudo que se encontra, são migalhas e restos de passado. Das coisas ainda pendentes no meu coração. Que ainda correm seu relógio, que ainda circula no sangue diluído… Se eu pudesse dizer algo às coisas que ficaram sem poder fazer qualquer coisa, que simplesmente espere que elas não mais precisem ficar. De soltar a gaiola e dizer por ali: “Voem que o céu faz mais azul que em mim. Não há aqui mais conforto que na liberdade. Se não sou mais, não há o que ficar…”

    Que por fim, só há o recolher de ter tentado mudar. De ter criado tantas ilusões de além, que a sinceridade escorregou pelas mãos. Agora tudo se faz de um borrão estranho, de sorrisos febris, de sonhos que tentei alcançar e que agora, mancham as mãos, mas essas manchas também logo passarão. Que ainda me vejo voar, pássaro negro pelos céus, e as asas descem cada vez mais na escuridão. Que me alimento mais e mais, das coisas mortas e como um corvo, alimento da carne morta que ainda sangra… Que ainda bate todas e todas, minhas dores.

    Mas sei que um dia no quadro celeste, as asas não mais baterão. E poderão simplesmente planar, que das alturas, o mais alto de todo o céu… É o amor. E que dele, um dia todo sangue no meu negro cessará. E as asas já cansadas de bater. Descansarão no azul. E o negro poderá ser só o branco. E a carne e o sangue, poderão se contentar com as migalhas. Mas eis que ainda dói… Que os sonhos ainda são os céus que me alcançam, ou simplesmente o cárcere no meu peito. Esqueci quem sou nos passos da vida, ainda me esforço em lembrar daquilo que passou…

    Mas cada dia o horizonte parece mais distante. As coisas aqui dentro agora só giram, e sentado num banco de praça, o mundo nunca passou antes… Tão depressa. Os olhos acalmados nas migalhas… O vento de um anil tranquilo, talvez fosse saudade, mas não mais vontade de voltar. Em preguiça vagarosa, passei ali apressado lentamente, com a noite chegando o melhor a se fazer é estar em casa.

    A melodia, o cantar da solidão. 

  2. Tempo de Estrelas

    Musica: http://www.youtube.com/watch?v=ooe28zQ-FPU

    Ainda restavam as nuvens, e pelos ecos da noite… Silêncio. Ele estava desta vez, profundamente triste. Havia percebido mais e mais que crescer significava sangrar tudo aquilo que lhe faltava ao coração… E o crescimento, todo o alcançar dos céus, só poderia ser feito, sozinho. Ao seu próprio passo, ao seu jeito de menino. Naqueles dias Deus veio lhe visitar na cabana… Estava silencioso, reticente, que, deixando o amor assim partir, que havia de sentido para continuar a se esforçar? Para continuar a lutar, havia no esforço, sua insegurança a tentar segurar um raio de luz que haveria para brilhar… Que não podia viver por aquilo, que não podia viver por ninguém. Partia marcando profundamente sua alma. E mais uma vez, a noite se alastrava.

    -Não temas ao que te passa, criança, quando pelas nuvens o sol se dissolver, haveria de ser em ti, saudade? Haveria de todas as coisas perderem sua vida só por não enxergarem ao céu, o sol? Ah, o vento ainda verá que seu brilho vai mais distante, e pelos ventos caminham calmamente. Nem haveria do chão o repouso, e das lágrimas de chuva não haveria também, ao encontrar o solo, o derradeiro lugar? Então mesmo que perca, mesmo que sangre. Não haveria de ter em suas mãos, senão seu ínfimo e suave, coração? Porque então ainda se entristece pelo que vem e o que vai, se tu também aqui, visitas?

    Deus sorria, e o menino chorava. Chorava olhando para o céu estrelado, sem lua, embalado pelos braços que se abraçavam. Com mais uma vez o vento na face, os olhos no horizonte. E mais uma vez levantando, sem pressa, sem uma vontade, sem interesse que não fosse lidar com a ínfima noite, a mais densa escuridão.  Os pés que até ali, lhe fizeram incansável, mas que se desviava para as belezas do mundo que lhe atraiam tanto, da mais bela cor, ao mais belo sorriso, passariam e passavam. E ele aprendia, que de tudo… Era um sonho, por mais belo que fosse… Ele realmente queria acreditar que seu coração sem se encontrar, poderia ser feliz. Mas não há felicidade, não quando o coração ainda não cansou de procurar. E seus pés ainda não se cansavam de marchar.

    -Ide em paz e, criança. Sobre o caminho, há sempre a solidão. Mas ali também beira o sangue que lhe mata a sede, tua carne para sossegar a sua fome. Sua voz há de cantar sob o céu e acredite, irá mais além, não tardará a chegar a luz do sol, e pela noite que caminham suas chagas, hão de ser curadas, quando o círculo se fechar, não haverá quaisquer fissuras. Seu medo tremerá o frio que permeia a escuridão, e todo suor carregará os falsos males. Não apresse a chegada do sol, ao que este já lhe acompanha sem cessar. E que nunca e nunca, deixou de te esperar, mas…

    Ainda restavam as nuvens, e pelos ecos da noite… Silêncio. Passos que enraizavam no céu, asas que se firmavam ao chão.

  3. Conversa Sobre Estações

           

    Só aquele que consegue enxergar em deus a lentidão, saberia dizer o quanto a vida é efêmera. Que mesmo além dos passos lentos, dos risos quentes, das conversas latentes, antes do começo da tarde branda de ventos… Antes do sol ser nublado pelas nuvens, ver a grama em seu silêncio, bem, dali os olhos diriam a vida passa mais lentamente. Mas ali é onde a eternidade chegaria primeiro. Bastaria um outono para as folhas secarem, o céu se tornar enferrujado, os passos preferirem abrigo, os risos preferirem sorrisos, e as conversas se trocarem por olhares.

    Talvez tudo precise de um outono. Talvez com o céu mais nublado seja preciso um abraço mais forte pra unir as pessoas… As cores voltarem ao cinza, mas posso arriscar dizer que esse cinza nunca chega realmente aos corações. Quem sabe por que pra todo sonho haja um outono, e que para todo sonho, uma cor que possa alcançar o coração. Porque enquanto o derradeiro sol não chegar, há de se conter a fragilidade que nos trazem as estações.

    E pelo frio saber se cuidar, ser paciente enquanto carregamos as cores, e saibamos agradecer pela tarde branda. Um pouco mais compreensivos nas conversas que circulam nossos peitos, dar mais atenção quando o riso lhes passar… Quando os passos ainda seguirem pelo vento. Talvez eu não consiga enxergar deus e talvez… A vida seja mesmo efêmera demais… E talvez amanhã possa alcançar. É talvez, Deus, talvez amanhã.

  4. O Vale do Murmúrio

                    

    Musicas:http://www.youtube.com/watch?v=M0YamFbt1W4

    E essa: http://www.youtube.com/watch?v=epl2VfKO8_Y

    E abaixo das folhas,
    Ao tempo esquecido em suas mãos.
    Memórias brancas nos céus
    E em seu coração…
    Um moinho de vento.

     

     

     

    O Vale do Murmúrio

     

     

     

    Ele mora em ti. Dentro do seu sorriso, um silêncio.
    Sorrateiro… Sopra sua alma, bem além, mais distante,
    E sutilmente, com um toque gentil, murmura pelos ventos.
    A encontrar e ser eternamente, encontrado.

     

     

     

              E o Vale do Murmúrio pode ser facilmente encontrado. Tal como um jardim quebrado, feito dos suspiros de sorrisos que ali passam. Ali, corre um rio limpo, de um cristalino azul e peixes não tão cristalinos assim; a grama longa e comprida se movendo lentamente. Se ali fossem postos os pés, a grama subiria até quase o joelho, as folhas fariam cócegas e tão logo sorrindo, o Vale sopraria. Talvez além um pouco da grama, e um pouco mais além do campo de girassóis. Apontando para o céu, uma torre alta fazia Tic-Tac… As engrenagens girando lentamente, roncando de um jeito preguiçoso, como se aproveitasse os raios de sol que urdiam ali dentro. Ali um pequenino olhava o céu, e se o Vale do Murmúrio existia tal como é… Ele partia de seu sorriso, do amor que dele voava para se abrir… Em todo aquele lugar.

    E já fazia mesmo muito tempo que estava só. Havia algo nele de quebrado, uma engrenagem solta que o fazia sentir o céu mais azul, as nuvens todas, pulsando uma calma e carinho. Em seus olhos, giravam sóis (girassóis), talvez ali em seu olhar fosse amor, talvez a loucura, talvez só algo bobo, bondoso, gentil. E quando ele observava as árvores se balançarem belas sobre o vento, ele sorria, porque aquilo dançava também em seu coração, um coração de corda. E por isso, a vida pra ele só podia ser feliz. Pois, poucos ali alcançavam, poucos sentiam o murmúrio, poucos poderiam se aproximar da canção silenciosa.

    Era um coração tal qual um relógio, que só se movia… Aos sopros do amor… Um coração com um moinho de vento ao centro, e por isso quase sempre, ele mais dormia que vivia acordado. As vezes o amor não o alcançava, e tão logo, sua vida, estava muito além das cercas vivas e dos olhos que só das cores prescreviam. Nele havia um brilhar ameno de estrelas, alguma coisa doce e terna que doía… E quando ele tocava nas coisas do mundo, elas se aqueciam… Quando o tempo a ele encontrava, ele sorria o céu, e dançava, mesmo que o sono o alcançasse, e com um sopro vagaroso, caia, e dormia com um sorriso, e Deus com certeza estaria por ali.

    É como imaginar nele, uma estrela distante. Que no fundo dos céus, sozinha, ao meio da noite, brilha, e ecoa longe toda sua alegria, não importando muito aonde chegasse. Mas que fosse além, que o amor por si, recebesse dele a força de ir adiante, de encontrar por si, uma casa. E quando ele bebia do rio, e a ferrugem lhe alcançava as dobras, quando rangia ao correr, sabia, que mesmo pouco tempo lhe faltando, ainda lhe restava ser, e por isso, quanto mais se entregava, mais suas peças, se desfaziam. E ia assim, desfazendo-se no amor… Enquanto o silêncio ainda o abraçava, enquanto a vida ainda o permitisse, ele confiaria todos seus sentimentos, ao mais distante azul. Ao mais brilhante infinito, a qualquer estrela que pudesse partilhar da sua vida.

    Vivia assim, passeando pelo vale. E viveu muito tempo olhando o céu sem pressa. Debaixo das folhas que o tempo lhe cobriu, debaixo de nuvens… Aquelas, cor de chumbo, que parecem pesadas demais pro anil celeste carregar. E uma hora, pois, ele adormeceu… E parecia que nunca mais acordaria. Ao amor, ter ali encontrado descanso… Pois que com a graça de um riso… E de um brilho, ele adormeceu. Mas não era ali, a morte, ainda havia seu destino… Havia ele a ter de plantar seu belo coração de papel, pois ele ainda girava, ele ainda se movia…

    Foi então que ali o amor, escutando seu sono, caminhou, tocou seu rosto. Ele acordou com um suspiro leve, desses que se despregam os sonhos. E quando seus olhos ao Amor encontraram, seus olhos derramaram, derramaram e transbordavam. Ele soluçava os risos em rios, como se ele não pudesse segurar. O Amor não era mais que uma doce garota para ele, e havia nela, sardas, dessas alegres, que temperam a alma. O sorriso, algo de lua, de prata e que mesmo que ela nele minguasse, que nele crescia, que nele era nova e eternamente cheia. Eternamente cheia.

    —Por que choras bom menino?

    Ele tocou o próprio coração por cuidado. Ele havia parado. O relógio, havia finalmente parado.

    —Porque agora, em ti, minha existência pode descansar. Encontrou seu lar.

    Incrivelmente, o amor, tocado, chorou.

    —Como, se eu ainda por ti, não fiz nada?

    —E existe. Não fez nada, e existe. E não vê que o céu por ti, não parece mais que eterno? Que minhas mãos, não tocam e ainda assim, te sentem e assentem tão forte como qualquer dança, de qualquer galáxia, de qualquer infinito? E ainda falando, nem sei dizer, que no peito o mar cresce, e no céu, meu abraçar alcança tudo. E de tudo, meu amor pode ser assim, ainda maior! E mais distante, pulsa forte a se abraçar a tudo que é existência, e que seja Deus. E se você criou a possibilidade em mim de amar… Deus não pode estar mais tão distante, então, porque poderia, eu, senão a isso sorrir e agradecer. Porque deus me mandou o caminho. Mandou-me você. E em ti, eu danço, até minha corda, até deus encontrar no meu fim, um começo para encontrar… Seu sentido.

    Ele se levantou e por não mais o coração se esforçar a rodar suas engrenagens, ele se desmontava. O olhar aturdido do amor abraçando, ele ria e de seu riso, as flores do jardim cresciam.

    —Não se levante…

    Ele abre os braços e o choro e riso de um ser incondicional e inevitável lhe crescia.

    —Não vê que já fui vencido e não há o que agüentar? Que mesmo meu tempo, já parou. Que é assim, que eu posso me entregar a ti?

    E as peças soltavam, e ele se desfazia e ainda assim sorria.

    —Eis aqui, o meu ser. Que se não puder te alcançar de nada ele vai me adiantar e ter qualquer serventia, se não puder andar na direção daquilo que é o meu destino, Do que adiantou sentir o sol, os rios, de que adianta ter a existência ao alcance das mãos, se não posso deixar que tomem a mim inteiro, pra fazer de toda a minha vida, um lar? Você não vê que cada peça minha que cai, é uma em Deus que se levanta? E enquanto houver você…

    Bate no peito três vezes e chora copiosamente.

    —Não haverá nada nesse mundo que já não esteja, encontrado. E aqui, o amor acontece e enquanto eu aqui, não estiver, o amor estará por mim, e onde ele não estiver, eu estarei por ele. Eis o meu destino.

    Ele tirou do peito e estendeu nas mãos. O coração que agora estava em paz.

    —Aqui, é este, o Vale do Murmúrio. O presente supremo do meu existir. E quando deus não te alcançar, venha aqui. Um jardim que poderá escutar qualquer um dos seus sentimentos mais silenciosos, onde não haverá distância ou sofrimento. O Vale onde o silencio resolveu acampar, onde o tempo não passa e o eterno poderá lentamente te abraçar.

     E sorria. Lá no fundo, o relógio se desfazia. O tempo não mais chegava por ali. O menino do relógio encontrou Deus pelo Amor. E ali, tal como um jardim quebrado, feito dos suspiros de sorrisos que ali passam. corre um rio limpo, de um cristalino azul e peixes não tão cristalinos assim; a grama longa e comprida se movendo lentamente. Se ali fossem postos os pés, a grama subiria até quase o joelho, as folhas fariam cócegas e tão logo sorrindo, o Vale sopraria. E sempre, sempre, em ti, se encontrar.

    Eis a história do garoto do coração de corda.

    E abaixo das folhas,
    Ao tempo esquecido em suas mãos.
    Memórias brancas nos céus
    E em seu coração…
    Um moinho de vento.

  5. Da Poeira ao Tempo

    Há certa poeira sobre o tempo e parece que todas as coisas passaram desde a última vez que minhas palavras se levantaram. Tudo parece ter passado, mas nada realmente mudou. Talvez um ponto ou outro tenha se subtraído em mim, e muitas outras palavras foram esquecidas e deixadas para trás. As pessoas se tornaram mais distantes do que posso sentir, ou sou somente eu quem se distanciou, de mim mesmo e do mundo. Os passos ecoam mais agora; certas coisas simplesmente caíram, simplesmente não fazem mais diferença. Como certas folhas que secaram da árvore não servindo mais de qualquer sentido para estarem presas aos galhos, ou ao chão.

    Estive passando pela praça, tudo parece alcançar o ocaso agora. Ainda há certo brilho, ainda há um céu saudoso sobre as cabeças, mas tudo parece tomar a mesma cor no horizonte, começando a juntar-se. Toda ira do sangue se foi raleada nos sentidos presentes. A agressividade, a afirmação… Suspendidos nos círculos do sol. Nem sei o que tem acontecido comigo, agora há certa reverência, certa gentileza tomando lugar de qualquer dos meus conhecimentos. Entregando o que quer que seja uma vitória. E ao passo que pulsa mais e mais o outono, mais os olhos caem, mais e mais fundo…

    As pessoas passam como as palavras, entram e saem aos próprios ensaios. O amor tornou um corpo no quadro celeste, tornou-se o azul. Já o tempo bate secamente na porta, parece não avançar, nem recuar. Derrama-se lentamente, sem passado ou futuro, só um somar de novas eternidades, de um crescer de novas perfeições. E é em dias como esse, que tudo parece uma coisa só, envelhecida aqui no peito. E pareço sentir deus sobre os dedos conversando no silêncio, ele poderia então, me ouvir? Ou seria meu silêncio brincando de Deus ao me escutar? Nem as dúvidas parecem estar se mantendo no ar, elas esvoaçam junto ao fôlego das nuvens.

    Consigo sentir onde meu dedo toca e ver ali as coisas se desfazerem, não restando nem o dedo nem o que fora apontado. Aquele que lê precisa sentir que não há um traço aqui a se saber, um conhecimento a alcançar, uma revelação a se cumprir. Talvez sintam o sol se pôr outra e outra vez. Nascendo nos olhos que lêem e se pondo nas palavras que se distanciam. Mas se deus realmente diz em tudo isso, assumo a culpa, pois que se pôs a brincar, e se ouve, pôs a se esconder…

    Sei que posso simplesmente desapegar dos obstáculos que Deus coloca ao meu caminho para que eu possa abraçar. Mas veja, posso alcançar onde os passos se levantam. E pergunto, haverá uma obra sua nas minhas ações? Ou só o espelho de todos os erros? As perguntas se levantam e caem… Veja: será que os erros vão continuar e continuar até encontrar um fim? E quando todos os erros se somarem, não seria encontrado nestes, a resposta de todos os acertos? O que há, então, de tão errado em ser tão quebrado quanto à soma de todas as tuas partes, Deus? Eu digo-te: é pela soma dos buracos entre os vidros, que encontro as pessoas que se encontram em ti. Alcance meu cansaço, penetre pelas feridas. Tome o que é teu.

    Às vezes me vejo um leve ser, vendo o corpo fugir do custo de quebrar-se. E que os rostos que passam por mim, e mais e mais, os amo. E mais rápido alcançam o horizonte dos meus olhos. Mais um pôr, mais um fim e um começo. Confio que assim seja o teu meio, braços dados com o começo e fim, mas o que fica em mim se nada se prende? O que repousa a mim Deus? Então seria a soma de todas as dores o acordar do coração? Acredito que a ti seja assim, e que assim seja se for aliviar, na consciência, a compreensão e elevação de todos os pecados. Que seja a mim, tua palavra incontida.

  6. Ao passo do Vento

    É como escrever uma carta agradecendo a própria vida, sabe. Dizer para um vulto que ao mesmo tempo em que acolhe, furta-nos os sorrisos. Tem um vislumbre majestoso, um traquejo brincalhão a correr sua risada sobre os dias. Não sei o que é, entrementes, sinto que toma por completo o palco. Que pulsa sem fronteiras, fundindo-se aos umbrais da mente e coração. É como aceitar deus e o diabo, não que se convide a própria natureza a entrar… O que se pode ser feito é deixar a porta aberta e que simplesmente entre, se for o caso. Por isso, ao invés de dizer o que é vão às palavras, eis um conto que o faça por mim, ao cair das lágrimas o que ao fundo alcança:

    Ao passo do Vento


    Dedicado a Dhyan Shanasa.

    Os dias caíam como um só; Klaus tinha um olhar cadenciado nos pontuares da vida. Parecia sozinho, seu jeito morno e simples de caminhar o norteava para o fim. Mexia a panelinha com caldo, fogo bem baixo… Um chiado que enchia seus aposentos, olhava a janela, e logo depois sorria com um olhar terno. “Já vou, senhor, já vou” ele dizia. A casinha era pequenina, Klaus pequeno como era não precisava de mais que aquilo, a ele, observar o próprio silêncio já era suficiente.

    Da sua boca um murmurinho, contava ao próprio passar do tempo as coisas que colhia ao coração. O quanto o milharal havia crescido naquela estação, na sandice dos corvos que agora falavam mal do espantalho e nas voltas da vida que agora o encontrava. Ao falar, arfava ao nada, e as palavras cobriam as paredes de um jeito sutil a entranhar nas paredes, trazendo mais e mais silêncio. Era como se a mera casinha pulsasse…

    Uma hora, pôs lenha ao fogo e mesmo assim o fogo apagou, Klaus riu abobado, e distou alto: “Não, não senhor… Não me venha com doçuras agora seu Travesso.” Dizia ele ao meio de risos. E persistindo, como se nunca houvesse tido resistência, o fogo da lareira se acendia. E era assim, dias simples cheios de nada e completos de tudo. Sem aspirações grandes, sem um grande inspirar, mas um grande expirar. Cheio, satisfeito.

    Chegou no dia de visitar seu amigo. Colocou seu velho cachecol verde e pôs o gorro preto, tal como um duende, tratou de passar lepidamente, passou pela casa, pelo vale, pelo rio e pelo sol… Até chegar ao moinho no canto e margem do mundo. Lá ele já chegava com as maçãs do rosto coradas, o olhar ameno e um balançar sonso. Sentou na grama molhada do orvalho, o céu misturado de cor e vida para ser brindado, não havia vento, tanto por tanto, o menino, ou moço, ou mesmo homem que era Klaus, esperou. Sem pressa, na verdade sem nem mesmo a espera. Foi então que sentiu o aproximar do seu amigo.

    Começou a contar que a flor que ele lhe dera na primavera passada havia secado e parecia que o outono viria mais cedo aquele ano. Falou da rinite persistente que o deixava com a aparência de um bêbado, com nariz vermelho. Pediu que ele não tivesse pressa, que alcançasse os vales, os rios, ou mesmo o inverno quando assim fosse momento, enquanto isso pediu que fizesse, ainda, parte do seu fôlego. Que ainda lhe fizesse companhia. Disse a ele: “Acenderei uma vela, vamos, jante comigo!”

    O moinho começou a rodar e Klaus se levantou, as mãos tiraram o gorro e o colocaram junto ao peito. Ninguém havia chegado… O vento passou, um vendaval seguido da mesma calma que o precedera; havia lágrimas em seus olhos, o pequenino fez uma reverência do que ao nada lhe trouxera. A majestade do que assim fizera e da conversa dita no mais profundo existir. Suspirou, olhou mais uma vez ao amigo que distanciava, ao sul agora, e acenou. Caminhou de volta para casa, colocou o gorro e tornou a passar pelo sol, pelo rio, pelo vale e chegou a casa.

    Pegou o machado e apanhou mais lenha. Havia inverno lá fora, mas não importava dentro da casa do pequeno Klaus, lá o fogo ardia. Ele sentou na cadeirinha de balanço e pôs a se ninar, e um último murmurar, como o de uma chama a se soltar de si veio com singela potência… O fogo baixou, quase ao se apagar, e assim ali foi dito… Entre o choro e o riso. Equilibrar de dois mundos caídos. “Boa noite senhor…” E a paz da neve na noite chegou como o arco de mil sóis a aquecer o coração do diminuto ser. Lá fora o vento ia entrando pela floresta… 

  7. O Jardim – A poesia da terra (Por Priscila Braga Curto)

    A este que vos apresento agora, chamamos Jardineiro. Ora ou outra podemos até chama-lo de homem ou menino, mas seria tolice. Nosso Jardineiro já foi menino, mas o lidar com a terra e a sabedoria que adquiriu por te-la entre os dedos, deram-no um coração grande; bem maior que este Jardim portanto fica difícil lhes descrever ou tentar mensurar. Não vamos também coloca-lo como homem, bem sabes que por aí existem muitos que se deixaram crescer e se desinteressaram das coisas mais importantes do mundo como a beleza do arco-iris e a suavidade do orvalho; nosso Jardineiro muito preza por todas essas coisas então aqui ele será apenas isso, o Jardineiro, artesão da terra, homem e menino na proporção que lhe cabem em sua plenitude.

    Durante muito tempo, antes de encontrar o conforto deste Jardim, ele vagou sozinho. Nem tentaremos descrever seus espinhos porque ninguém senão ele mesmo é capaz de entender a profundidade que eles lhe feriram – ou ferem – porém sabemos que para seguir em frente, mais cedo ou mais tarde ele precisaria travar um duelo com cada um deles; arranca-los da carne ainda que isso lhe custe um pedaço de si mesmo. Um certo dia, por travessura do Destino – ou chame você como quiser explicar estes acontecimentos que fogem ao nosso entendimento – o Jardineiro se encontrou aqui. Não vamos dizer que ele tenha encontrado o Jardim porque este não é um desses lugares que você adentra por um portão de ferro quando bem entende, ele se esconde aos que apressados passam preocupados demais com seus afazeres do dia.

    Quem o encontrou primeiro certamente foi o Vento em uma de suas travessuras pelo mundo afora. É difícil dizer onde ou como pois bem sabes que ele não tem rumo e o curso e sua dança é livre, portanto estar aqui ou ali não faz muita diferença. Ainda cedo, quando o sol se espreguiça entre as colinas, nosso bom homem já conversa com o Vento e é bonito para quem vê de fora a relação deles. Eles não são amigos se por amizade você entende este padrão ditado por aí afora. O Vento não poupa nem mesmo o Jardineiro quando precisa ser vendaval e sopra toda fúria de sua essência se necessário for para que ele desperte. O sono da dualidade, do julgamento. O sono que todos estamos sujeitos, mas que apenas alguns se dão conta da sua existência. E o Jardineiro então acorda de si mesmo, do sono que nem ele sabia que dormia.

    Folha por folha, raiz, caule, espinhos; ele tece seu Jardim com uma destreza ímpar. A própria Flor se deleita nesta relação… Engraçado é dizer que ele chegou a pensar que a conhecia. Talvez ele entenda de flores e saiba o tipo de solo que lhes agrada, conheça a quantidade de água que necessitam e os nutrientes que lhe fazem bem para que as pétalas estejam sempre vistosas e belas, mas conhece-la, nem mesmo ela conhece. Mas ele a aprendeu. O coração dele e da Flor em alguns momentos batem no mesmo compasso e ainda que lhe faltem palavras as vezes, ele enxerga nos mínimos detalhes a realidade da Pequenina. Tão frágil e tão forte… As lágrimas do Jardineiro, nada mais são do que o orvalho que transborda da Flor, eis a poesia da terra.

    Inevitavelmente falamos aqui também do Pássaro. Não apenas por ele morar no Jardim, na verdade mais do que ninguém o Pássaro e o Jardineiro se entendem. Mais que isso, eles dividem um ser, separado em dois corpos por mera conveniência. Ele forte e sofrido pelas lições da vida, o pássaro pequeno e frágil na sutileza de seu mínimos detalhes. Sempre arisco pelas gaiolas que já lhe roubaram da imensidão do céu, nunca deixou-se levar por uma relação de verdade; qualquer aproximação mais terna lhe era uma ameaça e o Jardineiro sabia disso. Foi preciso cuidado e dedicação para que a cada dia ele se permitisse chegar um pouquinho mais perto, e hoje o Pássaro pousa sobre seu ombro e entre cantos e risos a melodia da vida soa em sua forma mais bela.

    O Jardineiro talvez seja um menino que cresceu depressa demais. Não deixou para trás o coração e a inocência da infância mas aprendeu com dedicação cada lição que a vida lhe proporcionou. E continua aprendendo; boa parte do que hoje lhe atribuímos como sabedoria é na verdade um pouco de todas essas relações que ele tomou para si. O Vento, a Flor, o Pássaro… Tantas outras na verdade mas que não cabem aqui. O Jardineiro é um desses bons amigos que carregamos junto ao peito, com a certeza de que aconteça o que acontecer, mesmo em silêncio, ele sempre estará lá …

  8. [Flash 9 is required to listen to audio.]

    A primeira colheita

  9. O Flautista

    Conto para o concurso por Lucas Augustus

           Há muito, muito tempo atrás, tão muito que o tempo devorava os muitos “muitos” e ainda crescia nas histórias, havia um rapaz (…)”

           O Majestade estava ao encanto da flauta. A música corria pela platéia colhendo sorrisos enquanto passava, era como ver a alegria dançando no ar. E ao toque da música do Flautista de Weser, Rei Anísio Terra Branford aplaudia do camarote enquanto o flautista desenhava sua melodia aos passos de dança. Os músicos pareciam fora de compasso, como se forçados a acompanhar o ritmo febril do espetáculo, as cores lhes sumiam das faces, mas o grande espetáculo era dele, O Flautista.

             As garotas da Escola Real do Saber enlouqueciam aos assovios e refrões indecorosos ao loiro flautista que só sorria, costurava a multidão e marchava com o soar alto de sua flauta. Todos estariam imersos na magia que invadia o Majestade, mas conhecendo sua noiva, alguma coisa estava errada ali:

    —Ariane?

           O olhar da menina estava perdido no musico, perdia a atenção, o queixo caído. Hanson lhe deu uma balançada com um puxão de braço. Ela se virou sonsamente e olhou para o garoto como se ele fosse feito de vidro.

    —Oiee… João?

           Desconfiou e coçou a cabeça enquanto tentava montar o quebra-cabeça. O punho se fechou quando seu olhar encontrou um debochado Flautista.

    —Nada não.

          Quem conhecia Narin veria a menina aos berros apaixonados e conhecendo mais ainda saberia que a ausência de um fã clube para o Músico de Weser com camisas estampadas e faixas enormes com o nome do artista queria dizer que alguma coisa estava muito, muito errada.

    —Porque aquele Flautista não para de olhar pra você?

    —Tem milhões de pessoas aqui João! Que quié tá com ciúmes?! Eu hein! —Disse empurrando João que logo se sentiu aliviado pelo comportamento da menina voltar ao normal. Faziam mais de cinco anos que seu nariz não sangrava e se alguma coisa estivesse errada. Tocou o nariz. Ele saberia.

           O intervalo chegou fechando as cortinas. João se sentou e sorriu palidamente enquanto comentava com estranheza:

    —Nossa, é como se eu tivesse treinado o dia inteiro. Que cansaço é esse, agora?

    —Vai ver é essa sua chatice que anda tomando suas forças. —Disse a menina cruzando os braços.

    —Ah é?

    —É.

           João resmungou antes de ver a irmã, Maria Hanson driblar a multidão.

    —Ei João, não acha engraçada essa sensação, é como se eu tivesse trabalhado o dia inteiro…—A irmã parecia realmente exausta. 

    —É, você também sentiu? Pensei que era loucura minha.

    —Não até por que… JOÃO!!!

    —Que?!

    —Seu nariz!

    —O que é que tem…

            O nariz explodiu em sangue. Virou para ver a noiva e…

    —ARIANE!!

            Ela havia sumido.

    —AXEL!—Gritou o garoto em direção aos camarotes.

           O príncipe que estava sentado buscou João na multidão para logo encontrar  lá embaixo e ao ver o estado do garoto ele conseguiu entender o suficiente para alarmar o irmão que já sabia das habilidades do aprendiz de cavaleiro. João não esperou os guardas e seguido pelo instinto subiu ao palco. Os músicos estavam estirados no chão atrás das cortinas vermelhas sem qualquer vida quando o garoto passou por eles e atravessou o camarim como um raio “escravos de um encantamento! Ariane!”. O nariz sangrava mais a cada passo. “Por favor, Ariane… Não…” A visão lhe tonteou, lá estava Ariane desmaiada nos braços do Flautista em frente ao espelho do camarim. João correu em direção a eles, mas foi o tempo do músico entrar com a garota pelo espelho  e sumir de vista. João esmurrava o espelho, nada, não havia sequer vestígios.

    —ARIANE! ARIANE! 

    Despejando sua fúria quebrou o espelho e caiu de joelhos. No chão estava um bilhete:

    “Lembranças do Imperador Amarelo.

    —Hamelin.”

           Anísio Branford chegou com a guarda em seguida, João entregou o bilhete para ele, o rei apanhou e de alguma forma estranha sabia de onde aquilo viera, empalideceu e seus olhos perderam o foco.

    —Rei Primo avisou que isso um dia aconteceria. Ele voltou.

           O bilhete caiu de suas mãos; no chão só havia os cacos da partida.

             Há muito, muito tempo atrás, tão muito que o tempo devorava os muitos “muitos” e ainda crescia nas histórias, havia um rapaz que da sua flauta humanos e ratos ele sabia encantar…”

  10. O queimar da chama.

       

    Música: http://www.youtube.com/watch?v=rn6c1u_T_HI

    Tem cara de quem vais voar pelos céus;
    De quem vai andar o infinito.

    Caminhando sonhos sem fim 
    Sobre a margem e ao poente de um terço de palavra.
    Surge muda, calada sobre o calor inaudito de um beijo dormido

    E se esvai com a curva de um verso,
    Que sobre as mãos o traquejo de velas a dista e proba valia…
    Vai se o canto do perfume que chegou…
    Quisera de brilho antro 
    Dar-te o paraíso de chamas a lhe queimar os males;
    Como iluminar em fogueira todos os cachos de tuas belezas veladas.
    E dissimular o encanto que me deste,
    Tal que o sabor assim me mostra sobre o palco
    Os atos que interpreto sem saber quando por amar os faço.
    Sente, sente-se. Quando as coisas vêm,
    Aprecia-lhe ao teu olhar fugaz,
    Quando estas já se fazem prometidas
    Junto ao cortejo das vozes que ecoam
    .
    Ecoa assim como digo,
    E bato ao peito o coração que se chama em tua voz.
    Teu nome por fim, será fim.
    E como anjo. Voa…